quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Acadêmicos até às 24h
domingo, 14 de março de 2010
O abandono que gera dependência

A Histeria conta uma história. O afeto intolerável e a situação conflitante tornam-se inconscientes, através do recalcamento. O vínculo com a consciência se faz através dos sintomas: esconde e insinua a situação conflitante. As manifestações corporais são o retorno do recalcado. A via é simbólica, oposta à via anatômica. O corpo narra, fala, descarrega. O afeto é convertido na qualidade física da manifestação corporal.O corpo dramatiza como num jogo de mímica, à procura de um decifrador. Corpo simbólico, história, corpo mímica, pedindo e evitando ao mesmo tempo ser desvendado. Não há lesão orgânica. A via é a da escrita. A anatomia é singular, relacionada à história da sexualidade e da vida do paciente. Contudo, o vínculo com a realidade é mantido. E quem a vivencia precisa de ajuda. Que não a neguemos.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
O poder da palavra médica
Muito do que o médico faz, mesmo que não tenha formação ou conhecimentos sobre hipnose, é empregar de influência psicológica sobre o paciente.
Mesmo nos incrédulos dias de hoje a figura do médico se associa ao arquétipo do mágico, curandeiro e possuidor de conhecimentos secretos. As pessoas buscam seu conselho em momentos de aflição e sorvem suas palavras como vaticínios sobre seus destinos e caminhos. As roupas brancas, o instrumental de exame médico, o vocabulário diferenciado e a postura sóbria e segura que se espera de um bom médico impressionam e revestem de importância seus atos e palavras. Em qualquer consulta médica bem-sucedida verifica-se o aparecimento de rapport. Tanto que muitos pacientes referem melhora apenas com a presença e atenção do médico.
Os conselhos e orientações médicas são como que sugestões pós-hipnóticas, bem como as informações sobre o prognóstico da doença, que podem motivar o paciente para melhora ou mesmo piora. Substituir a palavra médica de poder que pode ser instrumento terapêutico por meras informações científicas inúteis ao leigo é desprezar o valor histórico da função médica.
O médico que mostra segurança e autoridade quanto ao diagnóstico e à efetividade do tratamento proposto muitas vezes está fazendo maior bem do que a própria ação química do medicamento seria capaz.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Aprenda a linguagem do silêncio

Mas quando você começa a se sentir mais próximo de alguém surge uma intimidade, então até mesmo uma simples palavra que pronuncie é importante. Então você não pode brincar com as palavras com tanta facilidade, porque agora tudo tem significado.
Portanto, haverá lacunas de silêncio. A princípio você se sentirá estranho, porque não está acostumado ao silêncio. Você acha que deve dizer algo; do contrário, o que o outro irá pensar?
Sempre que você se aproxima de alguém, sempre que há algum tipo de amor, o silêncio vem e não há nada a dizer. Na verdade, não há nada a dizer — não há nada. Com um estranho, há muito a dizer; com os amigos, nada a dizer. E o silêncio se torna pesado porque você não está acostumado com ele.
Você não sabe o que é a música do silêncio. Você só conhece uma maneira de se comunicar, e essa é verbal, por intermédio da mente. Você não sabe como se comunicar por intermédio do coração, coração a coração, em silêncio.
Você não sabe como se comunicar apenas estando ali presente, por intermédio da sua presença. Você está evoluindo, e os padrões antigos de comunicação estão ficando insuficientes. Você terá de desenvolver novos padrões de comunicação não-verbal. Quanto mais alguém amadurece, mais necessária é a comunicação não-verbal.
A linguagem é necessária porque não sabemos como nos comunicar. Quando sabemos como fazê-lo, pouco a pouco, a linguagem não é necessária. A linguagem é apenas um meio muito primário. O meio verdadeiro é o silêncio.
Portanto, não tome uma atitude errada; do contrário, irá parar de crescer. Nada faz falta quando a linguagem começa a desaparecer; essa é uma ideia errada. Algo novo tem de aparecer, e os antigos padrões não são suficientes para contê-lo.
Você está crescendo e suas roupas estão ficando apertadas. Não é que esteja faltando algo; algo está sendo acrescentado a você a cada dia.
Quanto mais você medita, mais você ama e mais se relaciona. E, por fim, chega o momento em que apenas o silêncio convém. Assim, da próxima vez em que estiver com alguém e não estiver se comunicando com palavras, e sentir-se pouco à vontade, fique feliz. Mantenha o silêncio e deixe que o silêncio estabeleça a comunicação.
A linguagem é necessária para aproximar pessoas com quem você não tem um relacionamento amoroso. A não-linguagem é necessária para pessoas com quem você tem um relacionamento amoroso.
É preciso tornar-se inocente outra vez como uma criança, e calado. Os gestos sairão — às vezes vocês sorriem e dão-se as mãos, ou às vezes vocês apenas ficam em silêncio, olhando um nos olhos do outro, sem fazer nada, só estando ali, presentes.
As presenças se encontram e se fundem, e algo acontece que só vocês sabem. Só vocês, com quem está acontecendo — ninguém mais vai saber, tal aprofundidade em que acontece.
Aproveite esse silêncio; sinta-o, prove-o e saboreie-o. Logo você vai ver que ele tem a sua própria comunicação; que ela é maior, mais elevada, mais secreta e mais profunda. E que a comunicação é sagrada; há uma pureza em torno dela.
domingo, 24 de janeiro de 2010
(Ré)forma psiquiátrica?

Que mundo é este?
por Fernando Lejderman
A doença mental de Nathaniel Ayers, no filme O Solista, ilustra a difícil realidade dos moradores de rua de Los Angeles, EUA; também correspondente à das grandes cidades brasileiras. O filme se baseia na história de um jornalista que, ao procurar uma matéria interessante, encontra um músico morador de rua. Com o passar do tempo, o jornalista realiza inúmeras tentativas para recuperar o potencial artístico e a sanidade mental desse personagem, que um dia fora um artista de extremo talento.
Muitos moradores de rua são pessoas desgarradas da família devido à gravidade da doença mental que os aflige e/ou pelo uso simultâneo de álcool e drogas, sobretudo as mais baratas, como o crack. O número desses moradores de rua vem aumentando desde 1990, após a mudança da legislação em relação às hospitalizações psiquiátricas, que, a partir de então, exige a vontade manifesta e a anuência dos doentes para serem hospitalizados. Estima-se que o número de moradores de rua de Porto Alegre esteja ao redor de 1,4 mil; em São Paulo, é cerca de 14 mil pessoas.
Presumir que uma pessoa delirante, com o pensamento fragmentado, desconectada do senso de realidade comum, que se imagina poderosa como um Deus ou um ser extraterrestre, manifeste a sua vontade ou assine um termo de responsabilidade aceitando a necessidade de tratamento especializado é algo incompreensível, desprovido de conhecimento, em relação à lógica dos processos mentais. No entanto, é exatamente isso que vem acontecendo no dia a dia da assistência aos doentes mentais graves desamparados, no que se refere a suas doenças de base, que deterioram o estado psicológico, aumentam o contágio de doenças infecciosas, como hepatite C, tuberculose e aids, levando a completa decadência física e mental.
Além das ruas, também as prisões se tornaram um lar alternativo para uma parcela dessa população de doentes que, por fim, acaba cometendo pequenos delitos ou quadros de agressividade e agitação psicomotora. Recentemente, o jornalista Nilson Souza publicou uma crônica em Zero Hora que conta justamente a história de um doente mental que permaneceu durante vários meses numa prisão em Caxias do Sul, cujo apelido, certamente não por acaso, era Quase Nada. Que mundo é este em que doentes mentais ficam nas ruas e nas prisões?
No Rio Grande do Sul, a Lei Estadual nº 9.716, aprovada em 1992, proíbe a construção de novos hospitais psiquiátricos públicos, bem como o aumento de vagas nos já existentes. No Artigo 15 da lei, ficou estabelecido que a reforma psiquiátrica seria reavaliada quanto aos seus rumos e ritmo de implantação no prazo de cinco anos. Já se passaram 17 anos e, de lá para cá, a população de doentes mentais nas ruas cresce ininterruptamente. Está mais do que na hora de se rever esta legislação.
* PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DE PSIQUIATRIA DO RIO GRANDE DO SUL
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Pensamento do dia: Vem que a minha sardinha é mais gostosa

Saudações a todos os insanos que me lêem…hoje logo cedo (nem tanto) liguei meu computador e acessei o meu twitter e lá havia uma mensagem de um site/portal de psicologia desejando-me um “feliz ano novo… e em 2010 diga não ao ato médico, a luta continua”.
… logo me passou pela cabeça: que forma de desejar felicidades não?! Parece mais com os famosos cartões políticos de fim de ano: “felicidades e ano que vem conto com vc na urna”…enfim, logo me veio à cabeça: engraçado, toda profissão tem seu “ATO” e todas são “contra” a aprovação do “ato médico”, pensamento do dia: vem que a minha sardinha é mais gostosa.(!?!?)
Então decidi pesquisar pela net pra ver o que de novo há sobre tal ato e tentar ver quais são os principais questionamentos sobre o mesmo. Logo me detive em 2 pontos muito debatidos do ato médico:
Art. 4º – São atividades privativas do médico:
I – Formulação do diagnóstico nosológico e respectiva prescrição terapêutica;
§ 2º Não são privativos dos médicos os diagnósticos psicológico, nutricional e socioambiental e as avaliações comportamental e das capacidades mental, sensorial e perceptocognitiva e psicomotora.
Uns vêem contradição entre as duas citações acima; eu vejo complementaridade.
E (tcharam!) eis que eu percebo a principal polêmica em torno da aprovação do ATO médico: a interpretação!
O Conselho Federal de Medicina formulou um texto que discute um pouco sobre essa polêmica “diagnóstica”, decidi compartilhar aqui no blog uma parte do mesmo:
II) Nem todo diagnóstico é diagnóstico médico
O argumento mais comumente utilizado por algumas profissões que se contrapõem ao projeto de lei do Ato Médico é o que diz ser este projeto prejudicial à sociedade ao considerar o diagnóstico das doenças uma prerrogativa específica dos médicos. Em primeiro lugar, é necessário divulgar que nenhuma das outras profissões da área de saúde, à exceção da Odontologia, possui a prerrogativa de diagnosticar doenças. Todas as demais, em suas leis, participam da assistência à saúde de modo e maneira bem específicos, sem qualquer referência ao diagnóstico de doenças. Cada profissão detém suas possibilidades diagnósticas definidas na legislação que as instituiu. E isso se conservará intocado, mesmo com a aprovação da lei dos médicos.
Em segundo lugar, é preciso diferenciar o que seja o reconhecimento de um estado doentio e o diagnosticar doenças, com o sentido estrito de diagnóstico médico. Tome-se, por exemplo, uma avó de uma grande família. Por sua experiência e por já ter visto diversas situações anteriores, algumas delas confirmadas por médicos, ao se defrontar com um neto apresentando febre alta, tosse com catarro purulento, dor no peito e prostração, ela, por certo, será capaz de identificar uma possível pneumonia – o que simplesmente explicita o reconhecimento de um estado mórbido. Do ponto de vista profissional, diagnosticar implica possuir competência técnico-científica para proceder ao diagnóstico diferencial entre os diversos tipos de pneumonias, bem como as demais infecções respiratórias, e prescrever o tratamento de modo profissional, como uma modalidade de trabalho social reconhecido e autorizado. Este ato implica efetivo conhecimento da fisiopatologia, capacidade de realizar exames comprobatórios e profundo saber em farmacologia para proceder ao tratamento adequado, além de conhecimento científico para, frente a uma intercorrência, adotar as necessárias alterações de conduta que o caso possa exigir. E ter autorização legal para exercer aquela atividade profissionalmente.
O diagnóstico médico, procedimento profissional típico da Medicina, não deve ser confundido com outras modalidades de atividade diagnóstica de outras profissões (que podem ou não ser compartilhadas com os médicos), como o diagnóstico fisiológico, o diagnostico psicológico ou qualquer outra modalidade de diagnóstico que a lei atribua a outra profissão.
Diagnóstico fisiológico ou funcional consiste na identificação do rendimento de uma estrutura ou função somática. Diagnóstico psicológico ou psicodiagnóstico corresponde ao diagnóstico funcional no terreno da conduta e do psiquismo. Permite identificar traços ou tipos de personalidade ou características de conduta de alguém. Nenhum destes casos envolve o diagnóstico de doenças.
Minha opinião?
Com certeza existem erros. Com certeza existem acertos. Com certeza a discussão é válida, mas somente para que se chegue a um denominador comum , que satisfaça de alguma forma a todas as diferenças e à sua maior vítima: o povo.
O que me intriga mesmo é tanta polemização em torno de um ato que regulamenta a profissão médica. Não vejo como radicalismos possam solucionar esse problema, a começar pelo próprio slogan “Não ao ato médico“; é muito mais extremo do que sua justificativa. É negar TODA a regulamentação de uma profissão milenar, afinal de contas, as palavras têm força!
Tanta polemização extremista em defesa da sociedade? Do SUS? Ou seria o extremismo a alegoria adotada pra gritar o não dito? Vai saber né, só sei que para mim extremismos cheiram a egos feridos!
…Aaah já ia esquecendo, FELIZ ANO NOVO a todos, 2010 realizações para todos no ano que está chegando e muito sucesso.
