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sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

De que raça você quer ser?


As diferentes formas de racismo têm em comum com a biologia o uso de um mesmo conceito - a raça.

Uma raça é um conjunto de indivíduos, dentro de uma espécie, que apresenta características genéticas similares e que pode ser diferenciada de outras raças pelo seu conjunto de genes. Uma boa comparação pode ser feita com raças de cães. "Salsichinhas" pertencem a uma raça claramente diversa daquela dos pastores alemães. Neste, e em muitos outros casos envolvendo plantas e animais, o conceito de raça é útil para classificar indivíduos. É útil, pois as diferenças entre os muitos membros da mesma raça canina são mínimas, se comparada com as diferenças entre as raças. Simplificando, um salsichinha se parece muito com outro salsichinha e nunca será confundido com um pastor alemão e vice-versa.
Aplicar este conceito aos seres humanos não é tão simples como pode parecer à primeira vista. Alguns casos parecem óbvios. O jogador Tinga, do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, poderia ser classificado como negro e Taffarel, ex-goleiro gaúcho da selação brasileira, como branco, mas quando vamos estudar um número maior de pessoas descobrimos que o tamanho das diferenças genéticas no grupo que se considerava branco é quase cinco vezes maior do que as diferenças entre brancos e negros. O mesmo ocorre com o tamanho das diferenças dentro do grupo de negros. É similar à tentativa de alguém em separar zebras em duas raças, uma composta pelas que têm mais listas pretas do que brancas e outra com aquelas que tem mais listas brancas do que pretas. A variação dos animais é de tal modo sutil que a classificação seria, para fins práticos, inútil.
Além disso, como os critérios são pré-estabelecidos, qualquer característica pode ser utilizada para classificar os grupos humanos, como, por exemplo, dividir a população em uma raça de pessoas bonitas e outra de feias, entre as que se parecem conosco e as que são diferentes de nós... O desconhecimento destes fatos levou o frei franciscano David Raimundo dos Santos, respeitado defensor dos direitos da comunidade negra, a afirmar: - Essa definição [de quem é negro] ainda não está pronta, vamos construir isso aos poucos no Brasil.

A formação do Brasil

A formação da população brasileira não foi meramente uma mistura de três ingredientes em um caldeirão, os estoques genéticos de europeus, africanos e ameríndios. Ocorreu, também, um processo de marcantes trocas socioculturais. Este sincretismo cultural tem levado, por exemplo, a que indivíduos, ou mesmo comunidades inteiras, que tenham uma identidade cultural sem diferenças daquela de qualquer brasileiro (falam português, vivem e vestem-se como qualquer cidadão na mesma situação econômica) sejam identificados por si mesmos e/ou por terceiros, como indígenas, de acordo com sua aparência física.
Em algumas sociedades, as pessoas são classificadas, tanto por si quanto pelos outros, pelas características fenotípicas (termo que os geneticistas usam para identificar algo, na aparência dos indivíduos, passível de ser medido) que apresentam, tais como cor da pele, textura dos cabelos, aspecto do nariz e lábios. Em outras situações, como no EUA, a existência de um ancestral africano, por exemplo, mesmo que longínquo, já seria o suficiente para que o indivíduo fosse identificado como negro. Por isso, no Brasil, é possível a um indivíduo negro ter um filho branco (dependendo de seus genes e dos de seu cônjuge), mas, nos Estados Unidos, não.
Além disso, algumas outras sociedades caracterizam-se pela tendência às classificações dicotômicas, escolhendo entre "isto" ou "aquilo". O México com seus mestizos e índios, o Peru e a Bolívia (choles e índios) e a Guatemala (ladinos e índios), seriam exemplos de países latino-americanos onde a maioria da população seria identificada somente com duas categorias, neste caso, índios e não-índios.
No Brasil, por outro lado, parece haver uma total ausência de regra de descendência, ao mesmo tempo em que a cor da pele se tornou um grande referencial. O termo "grupos de cor" é freqüentemente utilizado para classificar as populações brasileiras. A autodefinição dentro de quatro grupos de cor (branco, preto, pardo e amarelo) é, inclusive, o critério utilizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde 1980 para os censos no Brasil.
A ambigüidade de critérios também é uma regra bem brasileira. O exemplo mais contundente são os resultados, apresentados pelo IBGE, em uma de suas Pesquisas Nacionais por Amostragem a Domicílio (PNAD - 1986) onde mais de 190 diferentes designações surgiram em uma questão aberta na qual as pessoas podiam se autodefinir na "Designação de Cor". Isto não é tudo: há, ainda, marcantes diferenças entre como alguém é classificado por outro e por si mesmo: o IBGE pôde também verificar, em uma de suas abordagens, que 18% das pessoas identificadas como negras pelo examinador classificavam-se como brancas.
Podemos imaginar algumas situações. Uma pessoa de cor de pele mulata, que por sua situação social, não desejar o status de negro ou afrodescendente, terá esta opção - continuar branca - ou, obrigatoriamente, terá de ser classificada? Imagine a situação de dois irmãos gêmeos. Um deles obteve sucesso social e não deseja ser negro, pois não obterá nenhum benefício desta classificação. Seu co-gêmeo, para poder entrar com mais facilidade em uma universidade ou emprego público, opta por ser identificado como negro. O fato de um deles ser considerado negro, não obriga que o outro o seja, independentemente de sua vontade? Biologicamente, a cor da pele é uma característica de marcada herança multifatorial, significando que fatores genéticos e ambientais atuam em patamares de igualdade. De qualquer maneira, e por qualquer que seja o critério, o Brasil tem se caracterizado por um "continuum de cor" nas classificações de suas populações, que costumam ir do negro ou preto ao branco, passando pelo mulato, mulato escuro, mulato médio, mulato claro, pardo, mestiço, sarará, moreno, acrescido, ainda, das clássicas denominações que reportam a presença indígena tais com caboclo, mameluco, cafuzo, entre outras.

Sexo

Se formos considerar ainda outros tipos de marcadores genéticos, aqueles somente transmitidos pela mãe ou pelo pai, podemos obter algumas informações que sugerem um "sincretismo genômico". Devido às particularidades brasileiras, foi possível determinar que cerca de 10% dos negros de Porto Alegre apresentavam seus genes mitocondriais (transmitidos apenas por mulheres) de origem indígena. Grosseiramente, significa que um em cada dez negros estudados apresentava uma ancestral materna ¾ mãe, avó materna, a mãe dela, etc. ¾ que fora uma índia. Já entre os índios Guaranis, 11% e 3% dos homens tinham cromossomos Y (herdados apenas por linhagens paternas) de europeus e africanos, respectivamente. Eles tinham um pai, avô paterno, o pai deste ou outro ancestral nesta linha que fora um branco ou um negro. Em um processo colonizatório típico, o esperado seriam genes paternos dos colonizadores e genes maternos dos colonizados. Mas no Brasil, não tivemos necessariamente isso.
Enfim, os níveis de miscigenação do povo brasileiro foram e continuam sendo elevados, extrapolando qualquer valor determinado a partir de critérios morfológicos visíveis, como a cor da pele. Além disso, compartilhar características, não significa compartilhar a mesma herança, quer cultural, quer genética. Todos sabem, ou deveriam saber, que há africanos que não são negros como, por exemplo, os árabes no norte da África. Houve negros que não vieram como escravos para o Brasil e, sim, como trabalhadores assalariados e há, ainda, grupos humanos de pele escura que não são negros, como os indianos.
Há uma arbitrariedade inerente às tentativas de categorizar, de maneira absoluta, pessoas e populações humanas; ainda mais, tratando-se de brasileiros. As várias formas de ações afirmativas podem se basear em critérios biológicos, como o sexo, ou sociais, como a renda, mas, nestes casos, é possível classificar os indivíduos, para fins de benefícios ou incentivos, com bastante eficiência. Já a utilização do critério de raças para diminuir injustiças históricas acabará por aumentá-las, devido à imprecisão deste conceito, quando aplicado a um conjunto genômico tão miscigenado, como o de nossa população.

de Maria Cátira Bortolini e Renato Zamora Flores

Salzano, FM e Bortolini, MC (2002). The Evolution and Genetics of Latin American Populations. New York, Cambridge University Press.
Maria C. Bortolini e Renato Z. Flores trabalham no Departamento de Genética da UFRGS.
Publicado originalmente em Zero Hora, Caderno de Cultura, 08/03/2002, págs 2-3.

O mundo dos macacos

Muito bom!!!

"Dance monkeys, dance"

AIDS e a evolução humana




O que teria acontecido se não existisse a ciência? A humanidade seria exterminada pelo HIV?

A ciência foi rápida na criação de medicamentos capazes de controlar a aids. A sociedade não acompanhou o desenvolvimento científico e um número enorme de pessoas infectadas pelo HIV não tem acesso aos anti-retrovirais. Mas a evolução não depende da vontade humana. Enquanto a ciência desenvolve medicamentos, a evolução age na surdina selecionando os genes que conferem resistência à aids. O irônico é que esses genes vão beneficiar exatamente as sociedades que não têm dinheiro para comprar os anti-retrovirais. Desde que a doença apareceu nos EUA, o progresso científico foi enorme. Os cientistas descobriram que a doença é infecciosa, isolaram o vírus, seqüenciaram seu genoma e desenvolveram drogas capazes de bloquear seus efeitos. Os anti-retrovirais estão disponíveis para quem puder pagar. Mas o que teria acontecido se não existisse a ciência? A humanidade seria exterminada pelo HIV?É difícil prever, mas seguramente a mortalidade pela aids seria muito maior e, na pior das hipóteses, sobreviveriam somente as pessoas resistentes ao vírus. O planeta seria recolonizado por seres humanos resistentes ao HIV. A espécie humana teria sobrevivido sem o auxilio da ciência, como sobreviveu por milhões de anos. Nos últimos anos, foram identificadas pessoas que, apesar de infectadas pelo HIV, não desenvolvem a doença. Hoje sabemos que existem pelo menos 14 genes humanos ou mutações em genes humanos que conferem resistência ao HIV. É a evolução agindo sob nossos olhos. Em todos os seres vivos, e o homem não é exceção, as mutações surgem ao acaso. Entre os milhões de mutações que compõem a diversidade humana, existem algumas poucas, presentes em algumas poucas pessoas, que fazem com que essas pessoas sejam resistentes ao HIV. Essas mutações provavelmente surgiram muito antes de o HIV aparecer entre os humanos e, até o aparecimento do vírus, eram inúteis. Quando o HIV apareceu, essas pessoas se tornaram especiais por não desenvolverem a doença.Nos países em que a aids ainda não é tratada, as pessoas com essas mutações são "superiores". Têm uma chance maior de sobreviver e transmitir seus genes para os filhos. As pessoas "normais" são infectadas pelo vírus e morrem. É fácil imaginar que, com o passar das gerações, o número de pessoas com essas mutações vai crescer gradativamente até que toda a população seja resistente ao HIV. É claro que, durante esse processo, a mortalidade nessas populações será enorme. É o preço que a seleção natural cobra para espalhar um novo gene em uma população. É caro, mas o resultado é uma população imune ao vírus e que independe da ciência e dos medicamentos para conviver com o HIV. Os geneticistas estão monitorando a freqüência desses genes de resistência nos países africanos e (in)felizmente ela deve aumentar. Infelizmente porque isso significa que muitas pessoas morrerão de aids por não terem acesso a medicamentos. E felizmente porque, na pior das hipóteses, os futuros habitantes desses países serão seres superiores, resistentes ao HIV. É a evolução agindo na surdina, como sempre agiu até que surgisse a ciência.
Fernando Reinach
Artigo publicado no 'Estado de SP'
Mais informações em Human genes that limit aids, na Nature Genetics, volume 36, página 565, de 2004. (O Estado de SP, 1/6)
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