quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Histórias de PSF - A dor estampada.
Uma senhora entra no consultório com visível dificuldade para andar, puxando a perna esquerda e ao sentar-se diz:
- Doutor, tô com uma dor da "gota" aqui dentro da bolacha do joelho!
- Na bolacha do joelho? Hmmm...e essa dor começou quando minha senhora? - Pergunto eu.
- Ah doutor, faz uns 7 dias que tá assim...foi logo depois que comecei a usar a sandália estampada.
- Sandália estampada? - Questiono sem entender a relação da dor com a tal sandália.
- Sim doutor, daquelas cheia de "frorzinha".
Como quem não entendeu bulhufas murmuro - Hmmmm... e porque a senhora acha que essa dor começou quando usou essa sandália estampada?
- Ah doutor é porque eu sou alérgica a estampas.
domingo, 3 de abril de 2011
Medicadores de plantão - pra que serve a faculdade de medicina?
sábado, 28 de novembro de 2009
Lua de fel (Bitter moon)

Logo de início somos apresentados a Nigel e Fiona, um simpático e apático casal britânico, interpretado por Hugh Grant e Kristin Scott Thomas, que, de forma contida, tenta mostrar-se empolgado com aquela que seria a sua segunda “lua de mel”, após 7 anos de casados, a caminho da Bombain, na Índia. Uma espécie de “terapia marital”. O casal britânico, então, conhece a sedutora e misteriosa francesa Mimi (interpretada por Emmanuelle Seigner) e seu marido, o paraplégico de humor cáustico, Oscar (papel de Peter Coyote). Ao perceber o desejo que Mimi havia despertado em Nigel, o americano Oscar decide oferecer-lhe a chance de conquistar sua mulher, contando-lhe seus segredos, na ânsia de vivenciar o momento em que sua esposa seria seduzida por aquele homem que ele havia escolhido; mas em troca, Nigel teria que se comportar como um bom ouvinte e exercitar sua capacidade de empatia ao vivenciar toda dramatização em torno da história do casal.
Oscar e Mimi passam a viver um tórrido relacionamento, uma bela combinação do frescor e inocência de um amor juvenil, vivem de dias inseparáveis e de noites insaciáveis.Sentem juntos uma certeza cega, delirante, de que esse amor lhes era suficiente na vida e passam a viver apenas um para o outro, sem emprego, sem amigos, isolados em um apartamento, alimentando-se de desejo e prazer numa fusão representada pelo ato de Mimi ao derramar leite em seu próprio corpo, atraindo Oscar a saboreá-lo, com o ímpeto de uma criança faminta, sugando o sustento que brotara de seus seios.

Entretanto, fica evidente que algo falta ao casal que se consome cada vez mais em atos perversos na tentativa de temperar o seu amor. Seria essa uma forma de compensar a falta de afeto na relação? Onde está o carinho e o romantismo do amor outrora fresco e juvenil? Tal frustração de um amor não realizado, de forma inconsciente, revela-se em comportamentos agressivos. Mimi tem a navalha nas mãos e a carne de Oscar à sua disposição. A chaga na relação está feita e Mimi já bebe da hemorragia da emoção. O casal passa a representar o predomínio da pulsão de morte, no eterno conflito com a pulsão de vida, em que os dois ficam esmagados na luta que se estabelece entre a construção e a desconstrução de seu relacionamento, assim como disse Freud, a pulsão de morte é, portanto, “a pulsão por excelência, pois tende à redução absoluta das tensões internas, impelindo o ser vivo a retornar a um estado que, pela ausência de tensões, só poderia ser o estado inorgânico".Nesse momento Roman Polanski adentra o mundo das perversões sexuais e às práticas sado-masoquistas do casal.

O casal se desgasta; para Oscar a relação está por um fio, sente-se sufocado, necessita de liberdade, de variedade e então recorre a uma agência de prostituição, a mesma propagada no anúncio do ônibus 96. Sente pena de Mimi ao seu lado, em erupção, entregue e totalmente dependente daquele homem que beijava seus lábios como quem amassara um cigarro num cinzeiro. Mimi não aguenta a dor crônica de viver no vazio que era sua vida sem Oscar e em um ato impulsivo, como que se auto-multilasse, joga-se aos pés de seu amado, num esforço frenético para evitar a dor de um abandono real, disposta a viver com ele de qualquer forma suportando gritos, agressões e traições. Oscar vê aí a oportunidade perfeita para revelar seus traços sadistas, numa alternância entre extremos de idealização e desvalorização, transforma a vida de Mimi em um inferno mais quente do que ela poderia suportar.
Um dos momentos mais cruéis do filme é sem dúvidas quando Mimi recebe um convite tentador de Oscar, uma viagem para bem longe, uma oportunidade de um recomeço. Deitada ali num leito de hospital, ela ouve essa proposta como se estivera repousando no ninho da fênix, pronta para renascer das cinzas. Tratava-se apenas de um plano. Maquiavélico, Oscar arquitetou o projeto perfeito para se livrar dela e a abandona, fria e impiedosamente, sozinha num avião com destino a Martinica: “Para ela, deve ter sido um veneno. Para mim foi doce como um pêssego”.
Anos mais tarde Oscar é atropelado e vai parar num leito de hospital apenas com uma concussão e uma fratura no fêmur. Numa reviravolta surpreendente Mimi entra no quarto do hospital onde ele estava internado e relembrando o gesto que sacramentou o ciclo da relação num parque de diversões puxa-o do leito e derruba-o no chão. Na queda ela deixara-o paralisado da cintura para baixo, mas havia uma notícia ainda pior: “de hoje em diante, eu vou cuidar de você”, disse Mimi. Polanski nos faz sentir, então, toda a força do rancor e ressentimento de Mimi que nos mostra tudo o que uma mulher, cujo amor se converte em desejo de vingança, é capaz. Há agora uma inversão de papéis, levando Oscar a se sentir humilhado. E, como que numa comunhão entre o sádico e o masoquista, resolvem se unir pelos laços do matrimônio: “Sabíamos que não alcançaríamos os mesmos extremos de paixão e de crueldade com ninguém mais.”
Qual seria, de fato, a intenção do casal Oscar e Mimi a bordo desse transatlântico? Teria tudo sido um mero acontecimento casual dos fatos? Ou, como diria Jung, teria sido uma “coicidência significativa”? Na qual os acontecimentos se relacionam não por relação causal e sim por relação de significado. Sendo assim, os encontros e desencontros não teriam sido uma simples coincidência, pois não ocorreram baseados somente na aleatoriedade das circunstâncias, mas sim num padrão subjacente ou dinâmico expresso através de eventos ou relações significativos. Fica-nos a impressão de ter sido tudo um complô muito bem formulado pelo casal. Desde o encontro aparentemente casual, de Fiona com Mimi no banheiro do navio, até o envolvimento gradual de Nigel promovido pela narrativa de Oscar e postura sedutora e misteriosa da francesa. Oscar demonstra-se um marido que quer mais uma vez “sentir”. Parece desejar conquistar mais uma vez sua esposa, utilizando-se de outro homem para isso, como que na esperança de concretizar mais uma vez a emoção inicial de penetrar na alma de Mimi, buscando um novo começo, assim como o ano que está para chegar. Para tanto, envolve e deixa-se envolver por Nigel, na expectativa de surpreender e ser surpreendido, de perceber que aquela mulher ainda não se mostrou por inteiro a ele, de ver que ainda há mais de Mimi na própria Mimi do que Oscar, assim como demonstrado a Nigel, poderia possuir. Espera, talvez, sentir a emoção de ter o real poder sobre aquilo que considera possuído e saturado, buscando ainda uma gota de sangue da hemorragia já estancada.
O casal Mimi e Oscar revela necessidade de se compreender e ser compreendido, fazendo com que, numa demonstração de auto-piedade, Nigel e Fiona sintam um pouco da sua dor. Corroborando o ciclo vivido de desejo, satisfação, frustração, violência, remorso e culpa. Seria essa a grande motivação de todo o jogo? Teriam eles incorporado a altruística missão de prevenir a ruína de outro casal que, como eles um dia, havia chegado ao auge de seu relacionamento? Mostrando-lhes toda dor, humilhação, submissão, aprisionamento e possessão presentes na face obscura de um nobre e almejado sentimento chamado amor. Ou seria essa a oportunidade do casal promover sua catarse, purificando suas almas por meio da descarga emocional provocada pelo drama? Enfim, como diria Charles Chaplin “Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação.”
Thiago Moraes
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Crônica da Loucura
Crônica da Loucura
Luis Fernando Veríssimo
Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal.
O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco.
Ninguém olha para ninguém. O silêncio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses.
Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a sala de espera de um "consultório médico", como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos:
Na última quarta-feira, estávamos:
1. Eu
2. Um crioulinho muito bem vestido,
3. Um senhor de uns cinqüenta anos e
4. Uma velha gorda.
Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do principio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e ensimesmados.
(2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para levá-lo até aquela poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o namoro e não conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba"? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina.
(3)E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos? Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual? Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.
(4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.
Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista.
Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera.
Ele ri... Ri muito, o meu psicanalista, e diz:
- O Ditinho é o nosso office-boy.
- O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.
- E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe.
- "E você, não vai ter alta tão cedo..."

