quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Pensamento do dia: Vem que a minha sardinha é mais gostosa

Saudações a todos os insanos que me lêem…hoje logo cedo (nem tanto) liguei meu computador e acessei o meu twitter e lá havia uma mensagem de um site/portal de psicologia desejando-me um “feliz ano novo… e em 2010 diga não ao ato médico, a luta continua”.

… logo me passou pela cabeça: que forma de desejar felicidades não?! Parece mais com os famosos cartões políticos de fim de ano: “felicidades e ano que vem conto com vc na urna”…enfim, logo me veio à cabeça: engraçado, toda profissão tem seu “ATO” e todas são “contra” a aprovação do “ato médico”, pensamento do dia: vem que a minha sardinha é mais gostosa.(!?!?)

Então decidi pesquisar pela net pra ver o que de novo há sobre tal ato e tentar ver quais são os principais questionamentos sobre o mesmo. Logo me detive em 2 pontos muito debatidos do ato médico:

Art. 4º – São atividades privativas do médico:

I – Formulação do diagnóstico nosológico e respectiva prescrição terapêutica;

§ 2º Não são privativos dos médicos os diagnósticos psicológico, nutricional e socioambiental e as avaliações comportamental e das capacidades mental, sensorial e perceptocognitiva e psicomotora.

Uns vêem contradição entre as duas citações acima; eu vejo complementaridade.

E (tcharam!) eis que eu percebo a principal polêmica em torno da aprovação do ATO médico: a interpretação!

O Conselho Federal de Medicina formulou um texto que discute um pouco sobre essa polêmica “diagnóstica”, decidi compartilhar aqui no blog uma parte do mesmo:

II) Nem todo diagnóstico é diagnóstico médico

O argumento mais comumente utilizado por algumas profissões que se contrapõem ao projeto de lei do Ato Médico é o que diz ser este projeto prejudicial à sociedade ao considerar o diagnóstico das doenças uma prerrogativa específica dos médicos. Em primeiro lugar, é necessário divulgar que nenhuma das outras profissões da área de saúde, à exceção da Odontologia, possui a prerrogativa de diagnosticar doenças. Todas as demais, em suas leis, participam da assistência à saúde de modo e maneira bem específicos, sem qualquer referência ao diagnóstico de doenças. Cada profissão detém suas possibilidades diagnósticas definidas na legislação que as instituiu. E isso se conservará intocado, mesmo com a aprovação da lei dos médicos.


Em segundo lugar, é preciso diferenciar o que seja o reconhecimento de um estado doentio e o diagnosticar doenças, com o sentido estrito de diagnóstico médico. Tome-se, por exemplo, uma avó de uma grande família. Por sua experiência e por já ter visto diversas situações anteriores, algumas delas confirmadas por médicos, ao se defrontar com um neto apresentando febre alta, tosse com catarro purulento, dor no peito e prostração, ela, por certo, será capaz de identificar uma possível pneumonia – o que simplesmente explicita o reconhecimento de um estado mórbido. Do ponto de vista profissional, diagnosticar implica possuir competência técnico-científica para proceder ao diagnóstico diferencial entre os diversos tipos de pneumonias, bem como as demais infecções respiratórias, e prescrever o tratamento de modo profissional, como uma modalidade de trabalho social reconhecido e autorizado. Este ato implica efetivo conhecimento da fisiopatologia, capacidade de realizar exames comprobatórios e profundo saber em farmacologia para proceder ao tratamento adequado, além de conhecimento científico para, frente a uma intercorrência, adotar as necessárias alterações de conduta que o caso possa exigir. E ter autorização legal para exercer aquela atividade profissionalmente.


O diagnóstico médico, procedimento profissional típico da Medicina, não deve ser confundido com outras modalidades de atividade diagnóstica de outras profissões (que podem ou não ser compartilhadas com os médicos), como o diagnóstico fisiológico, o diagnostico psicológico ou qualquer outra modalidade de diagnóstico que a lei atribua a outra profissão.


Diagnóstico fisiológico ou funcional consiste na identificação do rendimento de uma estrutura ou função somática. Diagnóstico psicológico ou psicodiagnóstico corresponde ao diagnóstico funcional no terreno da conduta e do psiquismo. Permite identificar traços ou tipos de personalidade ou características de conduta de alguém. Nenhum destes casos envolve o diagnóstico de doenças.

Minha opinião?

Com certeza existem erros. Com certeza existem acertos. Com certeza a discussão é válida, mas somente para que se chegue a um denominador comum , que satisfaça de alguma forma a todas as diferenças e à sua maior vítima: o povo.

O que me intriga mesmo é tanta polemização em torno de um ato que regulamenta a profissão médica. Não vejo como radicalismos possam solucionar esse problema, a começar pelo próprio slogan “Não ao ato médico“; é muito mais extremo do que sua justificativa. É negar TODA a regulamentação de uma profissão milenar, afinal de contas, as palavras têm força!

Tanta polemização extremista em defesa da sociedade? Do SUS? Ou seria o extremismo a alegoria adotada pra gritar o não dito? Vai saber né, só sei que para mim extremismos cheiram a egos feridos!

…Aaah já ia esquecendo, FELIZ ANO NOVO a todos, 2010 realizações para todos no ano que está chegando e muito sucesso.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

De cara nova

Olá a todos que acompanham o Sanidade inSana, entra no ar a versão 2010 do blog. Optei por dar um ar mais limpo e mais leve ao blog que considero mais agradável de apreciar. Como grande novidade entram as barras de menu lá em cima, o que direciona e facilita o passeio pelo blog tornando a navegação mais objetiva. Tal etapa encontra-se ainda em construção, pretendo colocar mais menus e ampliar os submenus...mas tudo sem pressa pra não comer cru!
;)

É isso, espero que tenham gostado. Agora que estou de férias provavelmente o blog torne-se mais dinâmico!

Abraços inSanos a todos!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Portal de blogs "TUDO GLOBAL"

O "tudo global" é um portal de notícias e agregador de blogs alagoanos que entrou no ar há um certo tempo e já está fazendo sucesso. É uma excelente forma de manter-se atualizado sobre as notícias de Alagoas, do país e do mundo.
Visite o Tudo Global!
Aproveite também para conferir o Sanidade inSana no portal dos blogs.

sábado, 28 de novembro de 2009

Lua de fel (Bitter moon)




Um mar calmo, em diminutas ondas vacilantes, rasteja sob um céu escuro, nublado e gélido, avistado pela moldura ovalada e dourada de uma janela. Assim somos convidados a embarcar a bordo de um cruzeiro com destino a Istambul em uma verdadeira “Lua de fel”. Dirigido por Roman Polanski (polêmico diretor francês premiado com um Oscar em 2002 pelo filme “O pianista”) “Lua de fel” configura entre os mais amargos filmes sobre o amor, as obsessões e a sexualidade humana.

Logo de início somos apresentados a Nigel e Fiona, um simpático e apático casal britânico, interpretado por Hugh Grant e Kristin Scott Thomas, que, de forma contida, tenta mostrar-se empolgado com aquela que seria a sua segunda “lua de mel”, após 7 anos de casados, a caminho da Bombain, na Índia. Uma espécie de “terapia marital”. O casal britânico, então, conhece a sedutora e misteriosa francesa Mimi (interpretada por Emmanuelle Seigner) e seu marido, o paraplégico de humor cáustico, Oscar (papel de Peter Coyote). Ao perceber o desejo que Mimi havia despertado em Nigel, o americano Oscar decide oferecer-lhe a chance de conquistar sua mulher, contando-lhe seus segredos, na ânsia de vivenciar o momento em que sua esposa seria seduzida por aquele homem que ele havia escolhido; mas em troca, Nigel teria que se comportar como um bom ouvinte e exercitar sua capacidade de empatia ao vivenciar toda dramatização em torno da história do casal.

Oscar e Mimi passam a viver um tórrido relacionamento, uma bela combinação do frescor e inocência de um amor juvenil, vivem de dias inseparáveis e de noites insaciáveis.Sentem juntos uma certeza cega, delirante, de que esse amor lhes era suficiente na vida e passam a viver apenas um para o outro, sem emprego, sem amigos, isolados em um apartamento, alimentando-se de desejo e prazer numa fusão representada pelo ato de Mimi ao derramar leite em seu próprio corpo, atraindo Oscar a saboreá-lo, com o ímpeto de uma criança faminta, sugando o sustento que brotara de seus seios.

Entretanto, fica evidente que algo falta ao casal que se consome cada vez mais em atos perversos na tentativa de temperar o seu amor. Seria essa uma forma de compensar a falta de afeto na relação? Onde está o carinho e o romantismo do amor outrora fresco e juvenil? Tal frustração de um amor não realizado, de forma inconsciente, revela-se em comportamentos agressivos. Mimi tem a navalha nas mãos e a carne de Oscar à sua disposição. A chaga na relação está feita e Mimi já bebe da hemorragia da emoção. O casal passa a representar o predomínio da pulsão de morte, no eterno conflito com a pulsão de vida, em que os dois ficam esmagados na luta que se estabelece entre a construção e a desconstrução de seu relacionamento, assim como disse Freud, a pulsão de morte é, portanto, “a pulsão por excelência, pois tende à redução absoluta das tensões internas, impelindo o ser vivo a retornar a um estado que, pela ausência de tensões, só poderia ser o estado inorgânico".Nesse momento Roman Polanski adentra o mundo das perversões sexuais e às práticas sado-masoquistas do casal.


O casal se desgasta; para Oscar a relação está por um fio, sente-se sufocado, necessita de liberdade, de variedade e então recorre a uma agência de prostituição, a mesma propagada no anúncio do ônibus 96. Sente pena de Mimi ao seu lado, em erupção, entregue e totalmente dependente daquele homem que beijava seus lábios como quem amassara um cigarro num cinzeiro. Mimi não aguenta a dor crônica de viver no vazio que era sua vida sem Oscar e em um ato impulsivo, como que se auto-multilasse, joga-se aos pés de seu amado, num esforço frenético para evitar a dor de um abandono real, disposta a viver com ele de qualquer forma suportando gritos, agressões e traições. Oscar vê aí a oportunidade perfeita para revelar seus traços sadistas, numa alternância entre extremos de idealização e desvalorização, transforma a vida de Mimi em um inferno mais quente do que ela poderia suportar.

Um dos momentos mais cruéis do filme é sem dúvidas quando Mimi recebe um convite tentador de Oscar, uma viagem para bem longe, uma oportunidade de um recomeço. Deitada ali num leito de hospital, ela ouve essa proposta como se estivera repousando no ninho da fênix, pronta para renascer das cinzas. Tratava-se apenas de um plano. Maquiavélico, Oscar arquitetou o projeto perfeito para se livrar dela e a abandona, fria e impiedosamente, sozinha num avião com destino a Martinica: “Para ela, deve ter sido um veneno. Para mim foi doce como um pêssego”.

Anos mais tarde Oscar é atropelado e vai parar num leito de hospital apenas com uma concussão e uma fratura no fêmur. Numa reviravolta surpreendente Mimi entra no quarto do hospital onde ele estava internado e relembrando o gesto que sacramentou o ciclo da relação num parque de diversões puxa-o do leito e derruba-o no chão. Na queda ela deixara-o paralisado da cintura para baixo, mas havia uma notícia ainda pior: “de hoje em diante, eu vou cuidar de você”, disse Mimi. Polanski nos faz sentir, então, toda a força do rancor e ressentimento de Mimi que nos mostra tudo o que uma mulher, cujo amor se converte em desejo de vingança, é capaz. Há agora uma inversão de papéis, levando Oscar a se sentir humilhado. E, como que numa comunhão entre o sádico e o masoquista, resolvem se unir pelos laços do matrimônio: “Sabíamos que não alcançaríamos os mesmos extremos de paixão e de crueldade com ninguém mais.”

Qual seria, de fato, a intenção do casal Oscar e Mimi a bordo desse transatlântico? Teria tudo sido um mero acontecimento casual dos fatos? Ou, como diria Jung, teria sido uma “coicidência significativa”? Na qual os acontecimentos se relacionam não por relação causal e sim por relação de significado. Sendo assim, os encontros e desencontros não teriam sido uma simples coincidência, pois não ocorreram baseados somente na aleatoriedade das circunstâncias, mas sim num padrão subjacente ou dinâmico expresso através de eventos ou relações significativos. Fica-nos a impressão de ter sido tudo um complô muito bem formulado pelo casal. Desde o encontro aparentemente casual, de Fiona com Mimi no banheiro do navio, até o envolvimento gradual de Nigel promovido pela narrativa de Oscar e postura sedutora e misteriosa da francesa. Oscar demonstra-se um marido que quer mais uma vez “sentir”. Parece desejar conquistar mais uma vez sua esposa, utilizando-se de outro homem para isso, como que na esperança de concretizar mais uma vez a emoção inicial de penetrar na alma de Mimi, buscando um novo começo, assim como o ano que está para chegar. Para tanto, envolve e deixa-se envolver por Nigel, na expectativa de surpreender e ser surpreendido, de perceber que aquela mulher ainda não se mostrou por inteiro a ele, de ver que ainda há mais de Mimi na própria Mimi do que Oscar, assim como demonstrado a Nigel, poderia possuir. Espera, talvez, sentir a emoção de ter o real poder sobre aquilo que considera possuído e saturado, buscando ainda uma gota de sangue da hemorragia já estancada.

O casal Mimi e Oscar revela necessidade de se compreender e ser compreendido, fazendo com que, numa demonstração de auto-piedade, Nigel e Fiona sintam um pouco da sua dor. Corroborando o ciclo vivido de desejo, satisfação, frustração, violência, remorso e culpa. Seria essa a grande motivação de todo o jogo? Teriam eles incorporado a altruística missão de prevenir a ruína de outro casal que, como eles um dia, havia chegado ao auge de seu relacionamento? Mostrando-lhes toda dor, humilhação, submissão, aprisionamento e possessão presentes na face obscura de um nobre e almejado sentimento chamado amor. Ou seria essa a oportunidade do casal promover sua catarse, purificando suas almas por meio da descarga emocional provocada pelo drama? Enfim, como diria Charles Chaplin “Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação.”


Thiago Moraes

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Hipnose: a pá que cava tesouros escondidos

A maioria das pessoas já ouviu falar de hipnose, mas poucas sabem realmente do que se trata. Você pode já ter assistido a um programa de televisão em que alguém era hipnotizado e comia uma cebola sentindo o sabor de uma maçã, ou alguma outra demonstração similar. Tais indivíduos podem até dominar determinadas técnicas, mas carecem de senso ético. A hipnose é um fenômeno que demonstra que nossas capacidades vão muito além do que estamos acostumados a experimentar no cotidiano; através dela podemos trazer à tona recursos internos que não acessamos normalmente. Utilizá-la em demonstrações fúteis, sensacionalistas, sem um fim relevante, é utilizá-la de forma leviana.

Para nós, psicólogos, o uso da hipnose é aprovado e regulamentado pela Resolução CFP Nº 013/00 de 20 de Dezembro de 2000, como um recurso terapêutico auxiliar. É importante para as pessoas que buscam ajuda profissional assegurar-se de que o escolhido é habilitado, informar-se e, se necessário, denunciar aos órgãos responsáveis. Mas o que é, afinal, a hipnose?

Podemos conceituá-la como um estado alternativo de consciência, atenção e percepção, “no qual as limitações que uma pessoa tem, no que diz respeito à sua estrutura comum de referências e crenças, ficam temporariamente alteradas, de modo que a pessoa se torna receptiva aos padrões, às associações e aos moldes de funcionamento que conduzem à solução de problemas”, de acordo com Milton Erickson, o criador da hipnose moderna. Hipnose moderna? E como é isso?

A forma mais conhecida de hipnose, inclusive devido aos programas de televisão anteriormente citados, é aquela a qual chamamos de clássica: o sujeito permanece numa posição passiva, na qual é submetido diretamente às sugestões do hipnotizador, que determina “como”, “quando” e “o quê” ele experimenta. O mesmo padrão de tratamento, com as mesmas sugestões é aplicado a todos os indivíduos com aquele diagnóstico de “depressão”, “fobia”, “tabagismo”, etc.

Milton Erickson (1901 – 1980) criou novas formas de utilizar a hipnose, proporcionando um transe natural no qual o foco de atenção é interior. A hipnoterapia ericksoniana é um procedimento individualizado, ou seja, feito sob medida para aquela pessoa, naquele momento. Não tratamos “a depressão” mas sim aquele indivíduo, que vivencia aquelas dificuldades, do seu jeito particular e vai participando ativamente do processo, que não é determinado pelo terapeuta, mas orientado no sentido de facilitar que o mesmo entre em contato com seus recursos inconscientes que podem levá-lo à solução de suas dificuldades.

O uso do termo “terapeuta” no lugar de “hipnotizador” atenta para o fato de que somos profissionais de saúde, portanto, nosso objetivo é sempre proporcionar bem-estar e melhorar a qualidade de vida das pessoas. A hipnose é ainda temida por muitos devido a idéias equivocadas tais como “a pessoa fica inconsciente e é controlada”; “a pessoa conta todos os seus segredos”; “a pessoa pode não voltar mais”. Na verdade, no estado de transe hipnótico não perdemos a consciência e não fazemos nada que não queiramos fazer; as sugestões podem ser aceitas ou não. E é impossível não voltar do transe; no máximo, podemos dormir e depois acordar normalmente. Além desses, há muitos outros mitos que podemos ir esclarecendo aos poucos.

Por ora, apresentamos a hipnose como um recurso facilitador, que acelera o processo terapêutico e pode trazer resultados fantásticos se bem utilizada. Amplas são as suas possibilidades de aplicação, abrangendo os mais diversos problemas de saúde e situações de vida, tais como estresse, transtornos alimentares, ansiedade, depressão, fobias, pânico, problemas de pele, disfunções sexuais, distúrbios do sono, dor, luto, baixa autoestima, timidez, entre tantos outros. O tesouro guardado todos nós temos. Mas para encontrá-lo é preciso pegar uma pá e cavar.

Camila Sousa de Almeida

Publicado no Portal Sergipe Saúde:

http://www.sergipesaude.com.br/artigo.php?op=36

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Crônica da Loucura

Crônica da Loucura
Luis Fernando Veríssimo

O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou.

Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal.

O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco.

Ninguém olha para ninguém. O silêncio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses.

Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a sala de espera de um "consultório médico", como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos:

Na última quarta-feira, estávamos:
1. Eu
2. Um crioulinho muito bem vestido,
3. Um senhor de uns cinqüenta anos e
4. Uma velha gorda.

Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do principio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e ensimesmados.

(2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para levá-lo até aquela poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o namoro e não conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba"? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina.

(3)E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos? Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual? Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.

(4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.

Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista.

Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera.

Ele ri... Ri muito, o meu psicanalista, e diz:

- O Ditinho é o nosso office-boy.

- O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.

- E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe.

- "E você, não vai ter alta tão cedo..."

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Relação médico-paciente : companheiros de viagem

Esta é a história de dois renomados curandeiros, que viveram em tempos bíblicos. Embora ambos fossem altamente eficientes, eles trabalhavam de maneiras diferentes. O curandeiro mais jovem, Joseph, curava através de uma escuta silenciosa, inspirada. Os peregrinos confiavam em Joseph. Sofrimento e ansiedade despejados em seus ouvidos desapareciam como água na areia do deserto, e os penitentes saíam de sua presença leves e calmos. Por outro lado, Dion, o curandeiro mais velho, confrontava ativamente aqueles que buscavam sua ajuda. Ele adivinhava os pecados inconfessos deles. Era um grande juiz que punia, repreendia e retificava, e que curava por meio de uma intervenção ativa. Tratando os penitentes como crianças, ele dava conselhos, punia com a determinação da penitência, ordenava peregrinações e casamentos, e obrigava os inimigos a fazerem as pazes.

Os dois curandeiros nunca se encontraram e trabalharam como rivais durante muitos anos, até que Joseph se tornou cada vez mais doente espiritualmente, caiu em melancólico desespero e foi assaltado por idéias de autodestruição. Incapaz de curar a si mesmo com os próprios métodos terapêuticos, ele partiu numa jornada rumo ao sul para buscar ajuda de Dion.

Em sua peregrinação, Joseph descansou uma noite num oásis, onde travou uma conversa com um viajante mais velho. Quando Joseph descreveu a finalidade e o destino de sua peregrinação, o viajante se ofereceu como guia para ajudá-lo na busca por Dion. Mais tarde, em meio à sua longa jornada juntos, o velho viajante revelou sua identidade a Joseph. Mirabile dictu: ele próprio era Dion — exatamente o homem que Joseph procurava.

Sem hesitação, Dion convidou seu mais jovem e desesperado rival à sua casa, onde viveram e trabalharam juntos por muitos anos. Dion pediu inicialmente que Joseph fosse um empregado. Mais tarde, ele o promoveu a estudante e, finalmente, a colega.. Anos depois, Dion caiu doente e, em seu leito de morte, chamou seu jovem colega para que ouvisse uma confissão. Falou da antiga e terrível doença de Joseph e de sua jornada até o velho Dion para implorar ajuda. Falou sobre como Joseph tinha sentido que fora um milagre que seu companheiro de viagem e guia se revelasse ser o próprio Dion.

Agora que estava morrendo, tinha chegado a hora, disse Dion a Joseph, de quebrar seu silêncio sobre aquele milagre. Dion confessou que, naquela época, o encontro tinha lhe parecido um milagre, pois ele também tinha caído em desespero. Ele também sentia-se vazio e espiritualmente morto, e, incapaz de se ajudar, havia partido numa jornada em busca de ajuda. Naquela mesma noite em que eles tinham se conhecido no oásis, ele estava numa peregrinação em busca de um curandeiro famoso chamado Joseph.

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